Sinto minha boca seca, vagas lembranças da noite passada - Mirtes! me traga um copo d'agua! - fecho os meus olhos. Bendita Mirtes que tem sido a companheira que nunca tive, creio eu que seu salário elevado a motiva a me tratar bem. Flashes. Vagas lembranças.- PUTA MERDA, EU NÃO ACREDITO QUE FIZ AQUILO! - o carro, a única coisa que me veio na cabeça, lembro de um barulho estranho. Saio em disparada de meu quarto, - AI! MERDA, ESSE VASO DE FLORES NÃO ESTAVA AQUI DA ÚLTIMA VEZ! - caio, é indescritível a dor de bater o dedo mindinho em algum canto, fico quase que impotente. Me levando e sigo mancando até a garagem, abro a porta e me deparo com o parabrisas todo trincado, estou fudido.
O silêncio é lacinante. Não que sempre pensei nisso, mas ultimamente eu não o aguento mais. Esses bipes ritmados que acompanham meu coração dão agulhadas em meus tímpanos. Não consigo mover as pontas dos meus dedos. Sei que o lençol é áspero, mas não consigo sentí-lo. Essa nudez me incomoda, tenho medo. Tento gritar, não consigo. Solto um silvo que mais parece panela de pressão em pleno vapor. Tento de novo e desisto. Há uma gota de suor escorrendo em minha têmpora esquerda, está coçando e eu não consigo me mexer, - por quê? - é só o que vem na minha cabeça, por quê isso não aconteceu com aquele filho da mãe do vizinho que é um vagabundo? Por quê isso, logo comigo? Levanto a minha cabeça lentamente, olho para as minhas pernas, mas só encontro pinos e parafusos penetrados em minha carne. A porta se abre, a enfermeira entra e injeta algo em minha veia. A última coisa que vejo é um rosto muito conhecido com seu dedo indicador posicionado sobre os seus lábios. Vazio...

Nenhum comentário:
Postar um comentário